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Quatro licoes de ouro

janeiro 30, 2008 Deixe um comentário

Faz um tempo que eu não posto nada por aqui, um dos motivos é que estou sem computador e esperando o resultado do vestibular. Assim que tiver um computador em mãos e um pouco mais de tempo, volto a postar links interessantes, reportagens, etc.

Hoje irei colocar uma tradução feita pelo Osvaldo (infelizmente não tenho o link de seu profile), e que é valiosa.

Cientista: quatro lições de ouro
Steven Weinberg

Quando consegui meu diploma de bacharel em física – uns cem anos atrás – a literatura sobre física me parecia tão vasta, como um oceano inexplorado, cujo cada parte eu teria que mapear, antes de começar minha própria pesquisa. Como eu poderia fazer qualquer coisa, antes de saber tudo que já não tivesse sido feito? Felizmente em meu primeiro ano na pós-graduação, tive a sorte de cair nas mãos alguns alunos veteranos, que insistiam apesar de minha ansiosa relutância, que eu deveria começar a pesquisar e que fosse aprendendo o que me fosse necessário ao longo do tempo. Era nadar ou afundar. Para minha surpresa descobri que isso funciona. Consegui obter um rápido doutorado – apesar de que quando o consegui não sabia quase nada de física. Mas uma coisa importante eu aprendi, que ninguém sabe tudo, e nem precisa saber.
Outra lição a ser aprendida, continuando com minha metáfora oceanográfica, é que enquanto você está nadando e não afundando, deve procurar por terra firme. Quando eu estava ensinando no Instituto Tecnológico de Massachussetts perto do fim dos anos 60 (1960), um estudante me disse que gostaria de adentrar em relatividade geral ao invés da área em que trabalhava, física de partículas elementares, porque os princípios desta eram bem conhecidos, enquanto que os princípios da relatividade lhe eram confusos. Me atingiu que ele havia me dado uma perfeita razão para fazer o contrário. Física de partículas era uma área onde o trabalho criativo ainda poderia ser feito. Realmente era uma bagunça na década de 60, mas desde aquela época, o trabalho de vários físicos teóricos e experimentais foram capazes de resolver, e colocar tudo (bem, quase tudo) junto em uma bela teoria conhecida como o modelo padrão. Meu conselho é adentrar nessa bagunça – é aí que está a ação.
Meu terceiro conselho é provavelmente o mais dificil de aceitar. É para perdoar você mesmo de estar perdendo tempo. Estudantes são apenas cobrados para resolver problemas que seus professores (menos os cruéis não comuns) já sabem resolver. Ainda mais, não importa se o problema é importante cientificamente – eles devem ser resolvidos para ser aprovado no curso. Mas no mundo real, é muito difícil reconhecer quais problemas são importantes, e você nunca sabe em um dado momento da história se o problema é solúvel. No início do século vinte, vários físicos de ponta, incluindo Lorentz a Abraham, tentaram trabalhar com a teoria do elétron. Isso se devia em parte para entender por que todas as tentativas de detectar os efeitos dos movimentos da Terra pelo éter falharam. Sabemos hoje que eles estavam trabalhando no problema errado. Mas na época, ninguém poderia desenvolver uma teoria de sucesso para o elétron, porque a mecânica quântica ainda não havia sido descoberta. Foi preciso o gênio de Albert Einstein em 1905 para descobrir que o problema certo no qual trabalhar era o efeito do movimento na medição do espaço e tempo. Isso o levou a uma teoria especial da relatividade. Você nunca terá certeza em quais os problemas certos para se trabalhar, a maior parte do tempo que você gasta no laboratório ou em sua mesa é um desperdício. Se você quer ser criativo, então você deve se acostumar a gastar a maior parte do seu tempo não sendo criativo, para se submeter a ficar parado no oceano do conhecimento científico devido a falta de vento.
Finalmente, aprender sobre a história da ciência, ou no mínimo a história do seu ramo de ciência. O razão menos importante para isso é que a história pode ser útil para algum uso, no seu próprio trabalho científico. Por exemplo, de vez em quando cientistas são bloqueados por acreditar em um dos super-simplificados modelos de ciência que foram propostos por filósofos desde Francis Bacon até Thomas Kuhn e Karl Popper. O melhor antídoto para a filosofia da ciência é o conhecimento da história da ciência.
Olhe 100 anos atrás, para 1903. Qual a relevância hoje, de quem foi o primeiro ministro de 1903, ou quem foi o presidente dos Estados Unidos? O que realmente se destaca é que na universidade McGill, Ernest Rutherford e Frederick Soddy trabalharam na natureza da radioatividade. Esse trabalho (é claro!) teve aplicações práticas, porém muito mais importantes foram suas implicações culturais. O entendimento da radioatividade permitiu que físicos pudessem explicar como o centro da Terra e o centro do Sol, poderiam estar quentes mesmo depois de milhões de anos. Nesse sentido, removeu a última objeção científica a qual geólogos e paleontólogos pensavam sobre a idade avançada da Terra e do Sol. Depois disso, o cristãos e judeus tiveram que abdicar de seus credos da verdade literal da bíblia ou resignar-se a irrelevância intelectual. Esse foi apenas um passo na sequência de passos desde Galileo, passando por Newton e Darwin até o presente, o qual tempo após tempo enfraqueceu os dogmas religiosos. Lendo qualquer jornal hoje em dia é suficiente para mostrar a você que este trabalho não está completo. Mas é o trabalho civilizado, pelo qual cientistas devem sentir orgulho.

Steven Weinberg: Físico norte-americano, recebeu em 1979 o Prêmio Nobel de Física pelo seu trabalho de unificação de duas forças fundamentais da natureza (o electromagnetismo e a força fraca, através da formulação da teoria da força electrofraca), em conjunto com os seus colegas Abdus Salam e Sheldon Glashow.

Nature 426, 389-389 (27 Nov 2003)
Scientist: Four golden lessons[http://www.nature.com/nature/journal/v426/n6965/full/426389a.html]

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Categorias:Artigos, Física