Como é de costume, esqueci totalmente do meu blog. As semanas andam cheia de trabalhos, e nos finais de semana, acabo tirando para me divertir com os amigos; ninguém é de ferro né?
Estava pensando em escrever sobre racismo, que inclusive é o tema desse mês na Roda de Ciência. Para ser sincero, eu escrevi, só que em papel; o problema é que não o acho de maneira alguma em meio a minha bagunça. Então vou fazer o seguinte, vou escrever um pouco sobre Realismo, afinal tive uma aula maravilhosa [como de costume!] com o Professor Ronaldo, e também porque é uma das escolas literárias que mais gosto.
Bom, caso até final da tarde eu ache o texto que escrevi sobre racismo, eu coloco aqui.
Então, vamos lá…
“Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz consciência, e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa , e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! que desabafo! Que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos, não há platéia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele não se estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.”
(Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas, cap. I.)
“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legados da nossa miséria.” (Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas, cap. CLX.)
Nada como bons trechos machadianos.
Na segunda metade do século XIX, o realismo surge na França, quando Gustave Flaubert publica seu romance, Madame Bovary (esse link sobre o livro, está muito interessante, recomendo a leitura). O Realismo, movimento artístico surgido na França, e depois se estendeu a numerosos países, esta corrente aparece no momento em que ocorrem as primeiras lutas sociais, contra o capitalismo.
Pode-se dizer, que a passagem do Romantismo para o Realismo, corresponde uma mudança do belo ideal para o real e objetivo. Ou seja, é uma oposição à visão idealizadora, do “mundo perfeito em que não vivemos”, dentro de uma perspectiva crítica.
No Brasil, a introdução do Realismo, foi em 1881 com o livro do Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas. Já em Portugal, foi em 1865 com a Questão Coimbrã – ou “Bom Senso e Bom Gosto” – que foi uma divergência entre dois grupos: de um lado, Antero de Quental e os jovens de Coimbra, defendendo idéias novas (Realismo); do outro, Antonio Feliciano de Castilho e os tradicionais escritores românticos de Lisboa. Em 1871, ocorrem as “Conferências Democráticas de Cassino Lisbonense”; que eram ciclos de palestras, organizadas por Antero de Quental e Eça de Queirós, discutindo temas realistas.
Só para citar mais claramente, o Socialismo, o Positivismo [que via na igreja um atraso para as pessoas], e o Evolucionismo baseado na seleção natural de Charles Darwin, são influências sofridas pelo Realismo.
As características do Realismo; é que há uma apresentação da realidade (fim do escapismo), e essa apresentação é de uma forma negativa, ou seja, uma visão cruel de “podres” sociais, uma visão fria, materialista (fim do sentimentalismo).
PS: Recomendo uma boa leitura sobre o contraste com o otimismo progressista, e sobre o filósofo alemão Schopenhauer, são coisas interessantíssimas.
Um trecho;
…daí se deduz que a vida é dor, porque vontade é desejo daquilo que não se tem, é ausência, privação e, portanto, sofrimento, sobretudo se considerado o fato de que “satisfação duradoura e permanente objeto algum do querer pode fornecer; é como a caridade oferecida a um mendigo, a lhe garantir a vida hoje e prolongar sua miséria amanhã”.
(Arthur Schopenhauer, O Mundo como Vontade e Representação, p. 32.)
Essa sua obra principal, considera a realidade sob duplo aspecto: fenômeno e nômeno.
Acho que é só.
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